POR MIM  (2017)

12min   |   Recife - PE   |  Pedro Ferreira

Chegando ao Recife, percebi que tinha deixado algo passar.

 

Deixei que eu passasse despercebido por mim mesmo. Agora, em plena Veneza brasileira, procuro encaixar uma parte que talvez tenha se perdido e se confundido em outras pessoas. Dessa vez, a busca por um caminho a mim; Por Mim.

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Por Mim:

 

Depois de muito tempo as palavras parecem se perder no ar em que respiramos. Respiramos a essência delas, por mais que a forma não exista mais, ainda respiramos a elas.

 

Recife, quando voltei demorou bastante tempo para dar forma às palavras que respiramos, e até que possamos respirar essas novas brisas, o ar seria outro. Se agora, ao dizer essas palavras, estou produzindo um novo ar no qual iremos respirar, por que não produzo algo no qual eu queira respirar?

 

Recife, a Veneza brasileira, lar de quase todas as minhas histórias, lar das nossas histórias, se o Rio facilmente tomava a sua forma, Recife é você em si.

 

Você em mim, sabes o que é?

O que eu não sei é sobre mim.

Talvez tenha me perdido em qual seria o Recife e qual seria o arrecife.


 

É estranho o formato que essa cidade vem tomando em minha cabeça. Você tomou a forma dela e cada vez que eu lembro que estás aqui, chego a acreditar que alcancei algum tipo de utopia.

 

Antes, olhava essas ruas e cada uma podia lembrar-me um amigo no qual eu poderia visitar. Hoje, lembro de coisas em que não quero mais estar.

 

Recife, o lar das grandes revoluções,  agora, é o grande lar de crianças bêbadas e efêmeras demais.

Uma cidade que amo mas começo a não conseguir suportar.

Como amar no meio disso? Tem algo que possa ser feito?

 

Lembro do meu primeiro passo ao mundo, quando saímos para viver, quando me sentia vivo… O Recife Antigo e nossas histórias! Lembro de quando meu mundo se expandiu, quando me dei conta da tua existência; era algo inédito essa tal de reciprocidade.


 

Laços e linhas: não existe algo melhor para falar de conexões. Uma rede infinitamente enorme onde deveríamos priorizar o nosso caminho. Os laços alheios vão ser criados independentes do nosso esforço.


 

Espero que fique só no pensamento.Tudo é muito instável demais...

Assusta.

Provoca.

Faz o medo ecoar.

Confundir-se faz, em essência humana,

experiências individuais diversas, o conjunto desmoronar a favor de um indivíduo.

 

Não no meu turno.

 

Hoje vai ser tudo diferente. Vai ser uma linda noite de São João e vou experimentar os melhores dos amores: o meu amor!

É uma grande pena ver que algumas pessoas estão tão ocupadas, se dedicando aos outros que, talvez, nunca sintam como é dedicar a si mesmo.

 

Mas, e a felicidade? Ela só não era real se compartilhada? E quem disse que na nova era nós não compartilhamos?

 

É lindo, é extremamente lindo, e o que vejo daqui, meu Recife não é uma pessoa, jamais será, meu Recife sou eu, ele é incrível na medida do possível.


 

Erroneamente, minhas bases não eram, de fato, minhas, afinal, eu gosto dessa vista. Por que deixei os outros afetarem algo que eu gosto, o que eu gosto? Qual poema eu acho bonito? O que eu gosto no sexo? O que eu gosto nessa cidade? Que tipo de cena eu gosto de fazer? Onde estou nesta cidade? A perda no intuito do encontro foi o que eu cometi.

 

Grandes poetas enfeitam essa cidade e outros maiores ainda a habitam, mas é provável que agora estejam perdidos na estranha redes de laços.

 

Olhe para eles, várias fitas com seus caminhos independentes passando uma pela outra, criando um tráfico, uma cena, uma mudança, pessoas têm mais em comum com essas linhas do que com outras, em alguns momentos nós devemos ter valorizado mais o brilho da linha ao lado.

 

Me descobrindo, descobri esse novo Recife, desta vez sob responsabilidade da minha empreiteira, uma nova cidade peculiar cresce, cresce por todos os lados, aqui dentro, aqui fora, é uma paisagem sem responsabilidade, um eu que se esforça para sentir, Por Mim.

 

Olhar as cinzas de um amanhã é se precipitar demais, manter a verdade como algo atual e plural, ver pela brecha da fechadura o que vem agora é o essencial.

 

O barco que virou lama não foi o meu, o que está a venda também não é o meu, o meu está aqui, entrando pelos seus ouvidos, cruzando esse Capibaribe tão sujo quanto o próprio, mas, mesmo assim, seguindo. Sem uma fórmula, não existe uma fórmula, os balões do São João existem e a vida da transformação de alguém que um dia disse “um passo à frente e você não estará mais no mesmo lugar” existe. Quais transformações nós precisamos dar vida? Será que todas são realmente necessárias?

 

Esse Capibaribe não leva

Não leva tanta sujeira como nós

Esse Capibaribe não leva

As histórias que nós cravamos.

Esse Capibaribe não crava

As coisas que fazemos no nosso peito

Esse Capibaribe não tem peito

Para levar as coisas à frente

Mas esse Capibaribe tem caminho

Que é o que nos falta.

 

Por que deixei outra pessoa ser meu arrecife? O que tem na humanidade que cria tanta dependência no outro? O que tem em mim que me deixou dependente? Será que a falta de afeto em mim mesmo causou tudo isso? Saber de fulano ou sicrano, lugar que costumava ser meu, causa uns arrepios na espinha, porque foi permitido por mim que causasse.

 

Não podemos negligenciar as propriedades de algumas coisas na busca por nós mesmos. Não podemos deixar o amor de lado! A busca por si não precisa ser solitária, só precisa ser coerente com cada momento discriminando a sua maneira. O amor faz parte de nós e até por mim, eu deveria reconhecer onde está a outra parte de mim mesmo, não vamos negar o que já foi dito antes.

 

Minha veneza é essa, recém descoberta e com lindos cartões postais.

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