10min   |   2019   |  Pedro Ferreira

A representação de um amor divino, paterno e jamais romântico, mundano e cruel. Um Querubim assiste cândido enquanto se dilacera não um, mas vários laços em apenas um ato, e nessa visão em vermelho revela a natureza bárbara de um homem inconsciente de seu auto intitulamento.

Coagulação sanguínea ou um pensamento sobre o AA-.

As imagens e os sons de AA- me deixaram atordoados e foram eles que me ajudaram a dar um sentido ou pensar em uma unidade, que me daria a informação final de uma história inacabada. O subtítulo “algumas agressões são invisíveis” já nos deixa avisados de que o tema central é agressão (talvez não a agressão que convencionalmente conhecemos). O que me pareceu, desde o início, é que os pensamentos do personagem principal (cuja identidade só é revelada no final) está em constante turbulência, acompanhada por um belo jogo de imagens, como se estivéssemos dando pause e play em um filme. Acredito que esse seja o ponto mais alto da produção: o modo como nós entramos na história e nos envolvemos com a imagem (a cor vermelha) e o som quase que agonizante.

Pois assim mesmo são as agressões invisíveis, o personagem permanece passivo frente aos abusos vividos por ele. Aí é que podemos analisar o psicológico: o agredido se vê sem saída, como se ele dependesse emocionalmente do agressor. E isso é muito mais comum do que pensa.

Tudo isso nos desperta não só a reflexão a respeito das nossas relações abusivas (sejam elas familiares, de amizade ou afetivas), mas sobre em que lado nós estamos (ou somos): agredidos ou agressores? Ou estamos em uma cadeia imensa de agressões que se refletem uns nos outros? Não necessariamente são físicas (visíveis); as feridas invisíveis são difíceis de curar exatamente porque suas máculas podem ser eternas. AA- foi como a coagulação de um jorro de sangue que me deixou atônito diante das minhas próprias perfídias e que quer dizer muito sobre cada um de nós.

Critica por: Gabriel Baiano